Refletindo sobre a experiência de tentar criar um HackerSpace em Minas Gerais, Belo Horizonte, e ao ler o livro “O que é o Virtual?” de Pierre Lévy, somando ao momento que o Hackerspace de Fortaleza está vivendo (ForHacker), resolvi escrever este post.

Em seu livro Pierre Lévy diz:

“Uma comunidade virtual pode, por exemplo, organizar-se sobre uma base de afinidade por intermédio de sistemas de comunicação telemáticos, Seus membros estão reunidos pelos mesmos núcleos de interesses, pelos mesmos problemas: a geografia, contingente, não é mais nem um ponto de partida, nem uma coerção. Apesar de “não-presente”, essa comunidade está repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades…

Com base neste texto somado a criticas que recebi a tempos e as que faço a mim mesmo e a outros colegas, vejo temos o costume de estabelecer comunidades virtuais e o conforto destas nos levam a achar que um HackerSpace se estabelece facilmente por meio de tais comunidades virtuais.

Vejo porem que isso não é a realidade, um HackerSpace como o próprio nome diz é um espaço e assim deduzimos ser geograficamente estabelecido de forma física e concreta.

Um HackerSpace pode até dar seus primeiros passos via meios de comunicações com chats, listas de discussão como grupos do GMail. mas só no primeiro instante, se tal prática se tornar costumeira, corre-se o risco, em uma probabilidade bem perto de 100% dele se tornar uma mera comunidade Virtual.

Outro grande risco é acreditar que o HackerSpace somente pode tratar de temas relacionados ao mundo digital, de qualquer forma o Mundo intercede com o virtual a todo instante, portanto tudo a nossa forma é composto de algo que pode se tornar virtual ou vice versa, assim o digital se torna relacionado de alguma forma, sem deixar de lado quando o digital se torna um aliado ao que se deseja realizar.

Um exemplo da interação virtual, digital, real dentro de um HackerSpace, pode ser uma horta conectada via IoT, a horta real, se realiza com sua construção, mas antes ela é discutida no espaço de hackers que desejam experimentar novas técnicas de produção de alimento e sua interação com o digital, dai tomando mão de instrumentos como Arduino inicia a construção de mecanismos de gestão e manutenção desta horta que será irrigada e emitirá alertas através de de meios digitais para membros presentes fisicamente como também membros conectados por meios como twitter e grupos via GMail.

Portanto o virtual pode sim ser o primeiro passo, pode claro que sim ser o meio de manutenção do existente, mas nunca devemos permitir que o virtual se torne a realização concreta do virtual que um dia foi o Hackerspace, do ideal que este se fez nas mentes dos envolvidos.

Para compreender minhas colocações entre o HackerSpace Virtual e Real, concreto e estabelecido é preciso compreender a distância presente e o que o preenche entre ser Virtual e ser Real, aproveitando das primeiras palavras no primeiro capítulo do livro citado acima de Pierre Lévy, tento justificar minha percepção.

Consideremos, para começar, a oposição fácil e enganosa entre real e virtual. No uso corrente, a palavra virtual é empregada com frequência para significar a pura e simples ausência de existência, a “realidade” supondo uma efetuação material, uma presença tangível. O real seria da ordem do “tenho”, enquanto o virtual seria da ordem do “terá”, ou da ilusão, o que permite geralmente o uso de uma ironia fácil para evocar as diversas formas de virtualização….
A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes.

Veja portanto que ao usar de meios digitais com chats e listas de discussão, temos um HackerSpace Virtual, que leva assim a potencialidade de sua existência. Não anula o potencial a sua perpetuação por prazos além do necessário, mas traz o fracasso de sua realização em tempo, caso se acomode os participantes, e tendo assim aqueles que não compreendem adequadamente a natureza do empreendimento, a certeza que o hackerspace mesmo no virtual já se estabeleceu.

Mas então o que fazer para corrigir tal erro? é preciso fazer o update do virtual que se faz acontecer, para que uma nova releitura seja permitida, quebrando o ciclo e removendo do processo a prática que se tornou comum.

Percebi que no decorrer do tempo, as listas virtuais tanto do Hacker Space Minas como do ForHacker não se solidificam e tenderam a se tornar listas de “tira dúvidas” e exposições de ideias individuais. Não há mal algum quando estas são objetivamente suas ideias originais, serem virtuais, mas no caso de espaços físicos, tem um efeito danoso, pois seus membros não julgam ser necessário a presença física, para efetivar a existência do HackerSpace, levando então a falência do projeto, que parece bem sucedido quando tendo muitos membros e mensagens nos grupos, mas nenhum ou quase nenhum no espaço físico conquistado.

E ainda me pergunto, quem pode vir a ser culpado? Ninguém é culpado, mas sem dúvida há a responsabilidade dos que promovem e lideram as iniciativas, em esclarecer o que é um hackerspace e não se render a tendência de da maioria esmagadora, que muitas vezes não tem o perfil para estar congregando em um hackerspace, já que não querem a prática de compartilhar seus conhecimentos ou desafiá-los diretamente.

Então um hackerspace é um lugar para se desafiar os demais e derrubar seus conhecimentos? não, e claro que não, o HackerSpace é um lugar para se compartilhar conhecimento e reconstruí-lo na ótica da comunidade, agregando novos paradigmas ao que foi construído individualmente.

Hackerspace é um lugar coletivo que não pertence a nenhum individuo ou facção tecnológica, Hackerspace é um lugar que visa a troca de experiências e mais importante HackerSpace não é sala de aula, mas se aproxima mais a uma sala de debate.

Não importa se mesa redonda ou quadrada, o hackerspace precisa de espaços para interação e troca de conhecimento entre seus frequentadores, sejam eles membros efetivos mantenedores ou apenas visitantes, curiosos, e aprendizes. O HackerSpace tem que estar povoado ao meu ver por pessoas que desejam interagir visualmente, e serem interlocutores em ações de reconstrução do conhecimento, assim o naturalmente o conhecimento trafega sobre e através de todos ali presentes, dando oportunidade ao hacker como já dito rever seus conceitos, e ao aprendiz adquirir novos conhecimentos, mas nunca ver o hackerspace como lugar para se obter lucro e ministrar cursos de cunho lucrativo, mas claro o curso pode ser ofertado e pode-se até naturalmente remunerar quem o ministra, mas isso não é premissa.

Em resumo, concluísse que o hackerspace é físico, não existe se não tem endereço certo, equipamentos e infraestrutura adequada, repleto de personagens típicos, exóticos, espera-se o respeito pelo multinível conhecimento, e claro pelo diverso formato do dialogo. E qualquer lista por mais povoada que seja, não passa de uma comunidade virtual de hackers.


Carlos Delfino

Escrito por:

Analista de Redes Windows e Linux, Analista de Desenvolvimento em diversas linguagens, incluindo para Microcontroladores, Consultor, mais de 20 anos de experiência no mercado de TICs

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